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Prosas

A solidão que socializa

Todos os dias, muitas pessoas, pelo mundo, se conectam à internet. Pessoas das mais variadas idades, raças e classes sociais. Algumas em busca de informação, outras atrás de seus recados e contatos ou, ainda, à procura de companhia e relacionamentos.
“Eu entrei na ‘net’ para descansar um pouco do trabalho. Estava me sentido sozinho e carente aqui”. Declarações como essa, do programador de informática Felipe*, 32 anos, são comuns aos usuários de chats, as são salas virtuais onde pessoas se conectam para conversar.
Os usuários entram para “arejar a cabeça”, entram em função da solidão que sentem. Recorrem à internet por motivos variados, mas todos os entrevistados confessam o sentimento de carência, seja ela amorosa ou não. É a falta de algo que leva essas pessoas a buscar algo no mundo virtual.
A busca pode variar entre amor, amizades e sexo: “procuro sexo. Procuro mulheres lindas e maravilhosas sedentas por sexo seguro. Sou casado, mas sou sincero. Só saí com umas quatro mulheres daqui em três anos, porque tem todo um trabalho de convencimento e não quero me expor. Não quero amantes, só casos. Saídas de,no máximo, uma vez”, afirma o contador Tom*, 40.
Garotos de programa usam o meio virtual para promover seu emprego e aumentar a “carteira” de clientes: “faço programas há um ano e meio. Só atendo mulheres. Conheço elas pelo chat e, se rolar um clima, saímos. Eu não sou daqueles que chegam, vão tirando a roupa, sobem pra cima da mulher, ficam transando, mal e porcamente, 15 minutos e vão embora… Eu procuro conversar antes, tomar um drinque, um banho a dois bem legal, uma massagem de repente! Eu já tenho outro emprego, não cobro caro. Gosto mesmo é do momento, da satisfação. Gosto que a pessoa com quem estou se sinta legal. Grana eu deixo em segundo plano”, brinca Guilherme*, 31, “lover”, como ele se denomina.
Bruno*, 27, está apaixonado. Faz um mês que fala todos os dias com a sua “namorada virtual”. “Ainda não nos conhecemos. Mas, só de telefone, gastei R$800 este mês. Estou sendo correspondido e tenho muitas expectativas quanto a ela. Acho que 90% das pessoas, na net, são
sinceras. Teve uma vez que saí com uma mulher que dizia ter 33 anos e, no final, me confessou que tinha 40. Apesar disso, acho que as pessoas são sinceras sim”, afirma.
O funcionário púbico, Leonardo*, 37, procura relacionamentos casuais na internet. Ele acha muito difícil encontrar algo sério. Sempre é sincero, pois para ele, mentir é perda de tempo e dinheiro. “É uma minoria que mente na net, mas sempre tem, pois a internet favorece isso já que as pessoas se escondem no anonimato”, observa. Saiu com, aproximadamente, 160 mulheres através de chats, mas se envolveu somente com duas. Ele desabafa: “não tenho orgulho disso. Queria ter acertado de primeira”. Ao final da entrevista, Leonardo revela: “man”, tenho
sempre cerca de seis em contato para sair. Mais de seis é difícil de administrar”.
A internet virou uma opção, para conhecer pessoas, quando se tem pouco tempo livre com a vida tumultuada dos tempos atuais. “Eu considero a internet, hoje, um meio bem viável de se conhecer pessoas legais. Principalmente, pra mim que, atualmente, tenho pouco tempo livre, pois o escritório e a faculdade me consomem, praticamente, 80% do meu dia útil de segunda a sexta”, afirma o formando em Direito, Gustavo*, 25.
Nem todos têm experiências positiva na internet. O agente publicitário, Luis*, 43, recém separado, não encontrou o que esperava. “As pessoas não são o que dizem ser. Até as fotos enganam”, reclama.
O estudante, Carlos*, 18, tornou-se um viciado em relações virtuais “um dia, recebi um telefonema a cobrar. Era uma menina. Gostei da voz dela e tudo mais. Então, comecei a puxar papo e fiquei um tempinho conversando com ela só por telefone. Nesse meio tempo de conversa, mudei bastante. Algumas coisas para melhor, outras nem tanto, mas mudei”. Depois disso, Carlos ficou fascinado por conhecer as pessoas “de maneira interpessoal e, logo após, pessoalmente”. O estudante continua: “mas, no caso da internet, só me encontrei uma vez com alguém. E pode ter certeza: é super desagradável, porque daí caí na real que é só pela ‘net’ mesmo a ‘paixão’. Chegando pessoalmente, tem que olhar nos olhos e aí há falsidade. Palavras e frases formadas saem do nosso controle”. Questionado sobre a sinceridade no mundo virtual, ele comenta: “quando as pessoas mentem é porque estão com medo de serem reconhecidas na rua. Na internet, as pessoas e, principalmente, os jovens se abrem sobre sentimento e dúvidas que têm e que não conseguem tirar com pais ou irmãos mais velhos. E mentem, também, quando se sentem enganados”.
Difícil mesmo foi conseguir depoimentos de mulheres. Diferentes dos homens,pelos chats, elas não contam suas histórias a outras mulheres. Nem dão chance de entender o que a reportagem queria. Todas as mulheres foram abordadas fora do mundo virtual, e só se abriram porque existiam laços de amizade com a repórter.
A professora Fernanda*, 26, seguidamente, conhece pessoas pela internet: “sempre que vou sair com alguém, deixo o número do celular com uma amiga, e combino de ligar duas horas depois do encontro para ela saber que está tudo bem”. A estudante Rejane*, 24, não pensou em nada: “saí com um cara, nem pensei nos riscos que estariacorrendo. Ele é conhecido de um amigo, mas nem nos conhecíamos, e tudo foi combinado pela internet. Graças a Deus que ele era uma pessoa legal”,lembrando.
Não foi dessa vez…
“Estava, um dia, batendo papo num chat para passar tempo. Conheci um cara e, em seguida, trocamos o e-mail do MSN . Passamos a nos falar sempre por ali. Uma semana inteira e, quanto mais ele me contava sobre sua vida e seu jeito, mais eu me encantava. Ele insistia para a gente se conhecer, mas fiquei receosa. Afinal, nunca tinha conhecido alguém assim, pela internet.
Eu estava muito curiosa e confesso que apaixonada por ele. Mesmo sem conhecer pessoalmente, sonhava e fantasiava coisas com ele. Acabei topando sair. Fomos num barsinho bem conhecido e tomamos uma cerveja. A conversa rolou como se nos conhecêssemos há anos. Cada minuto que passava, ficava mais fascinada por ele e saímos juntos todos os dias naquela semana.
Quando chegou sábado, ele disse que iria viajar, e eu mandei uma mensagem para o celular dele toda apaixonada. Meu celular tocou e eu atendi toda feliz. Mas não era ele e sim a namorada. Fiquei muito triste e confesso que com bastante receio da internet”. (Mariana*, 26, estudante).
Foi dessa vez…
“Tudo começou quando eu não queria mais sair. Só ficava em casa, no computador. Já tinha conhecido vários rapazes, mas sempre dava um bolo e saía fora. Um dia, conheci uma pessoa que me chamou a atenção com suas brincadeiras. Marcamos de ir ao cinema uma semana depois que falamos na internet. Foi legal. No início, parecia que ele era muito tímido, mas não era. Era muito apressado e, com isso, eu já queria ‘dar um fora’ nele no terceirodia. Só que, depois de conhecer melhor, não queria mais sair de perto dele.
Ele era muito companheiro, carinhosoe romântico. É difícil ver um homem assim. Começamos a namorar. Foi seis meses só de alegrias. Depois veio um presente, mas que deixou o Pedro* bastante nervoso.
Eu engravidei. Ficamos com medo. Pedro* falava muita besteira e coisas que me deixavam triste. Depois que ele viu a primeira foto do bebê, ficou todo animado e esqueceu tudo que havia falado e pensado em fazer.
O tempo passou e chegou a hora do Matheus nascer. Foi uma loucura. O Pedro* estava trabalhando e eu com ele. Chegamos ao hospital em cinco minutos. Foi muita loucura e correria, mas o Matheus nasceu. Pedro*, que é branco, ficou mais branco e o médico não queria dar o bebê
para ele segurar.
Depois, Matheus foi crescendo e queríamos ter nossa casa. Foi um bom tempo de espera, procurando e vendo o que dava para pagar. Mas conseguimos e, hoje, temos nossa casa, nosso carro zero Km e nosso filhão, que, com um ano e quatro meses, está mais esperto do que o pai.
Às vezes, da vontade de ir embora, de volta para casa de minha mãe por causa de umas briguinhas. Mas daí, bate uma saudade… Dizem que um casal tem de ter brigas, né?”. (Bianca*, 21, estudante).
Palavra de especialista

“O relacionamento on-line é, hoje, uma realidade e penso que vai continuar”, afirma a psicóloga Nair Teresinha Gonçalves. Segundo a terapeuta, as pessoas sempre buscam um relacionamento, e a internet dá uma resposta mais imediata a esse desejo. Mas é muito importante que se construa pontes entre o mundo virtual e o mundo real.
A busca exagerada por alguém pode demonstrar uma insatisfação consigo mesmo. “Possivelmente, as pessoas, que ficam sempre buscando, não encontram satisfação num espaço próprio, sentem-se inseguras. Então, estão sempre buscando fora delas e nunca se satisfazem”, alerta Gonçalves. “Isso torna as relações frágeis quando elas acontecem, pois há uma idealização da outra pessoa e uma crença de que ela vai resolver todos os problemas”, completa a psicóloga.
Um aspecto negativo, apontado por Gonçalves, são as personagens criadas: “o ideal é que as pessoas se mostrem, como são, na internet. As pessoas que não se mostram, geralmente, têm uma carência muito grande, uma auto-estima baixa, não se aceitam, gostariam de ter uma outra vida. Então, se reinventam”.
A reinvenção de si mesmo, como a psicóloga chama, demonstra uma insatisfação com a vida e dificuldades para mudar o que não se gosta: “é importante a pessoa se dar conta do que a está abafando, oprimindo e porque ela não põe em prática seus desejos”, aconselha.
O perigo de se criar personagens é que, na hora de se estabelecer um relacionamento real, eles não vão em frente: “a pessoa com quem se está conversando recebe as informações e cria uma imagem do outro. Apaixona-se por essa imagem. E, quando vê, não é nada daquilo. A imagem desmorona na primeira troca de olhares, inclusive pela mentira. Elas enganam o outro, mas, principalmente, enganam a si mesmas”, comenta a terapeuta.
As paixões virtuais ocorrem por novos paradigmas como explica Gonçalves: “para entendê-las, é preciso que se crie novos paradigmas, porque se ficarmos presos ao olho no olho, atração física, tom de voz, não vamos aceitar as relações amorosas pela web”. Segundo a terapeuta, o que possivelmente existe, na internet, é a cumplicidade, a troca de confidências, as fantasias compartilhadas. Não existe a presença física.
“A internet está aí, e possibilita que as pessoas se conheçam e construam vínculos,antes de uma relação real. Abre caminhos, abre portas”, afirma Gonçalves.
* Todos os nomes são fictícios para preservar a privacidade dos entrevistados

Sa iba quando procurar ajuda
– Quando você substitui o mundo real pelo virtual, epassa mais tempo na internet do que em outras atividades, deixando de lado outros compromissos.
– Quando você se descreve diferente do que você ou sua vida é realmente. Isso é um alerta para si mesmo.
– Quando não consegue estabelecer pontes entre o mundo real e o virtual.
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Matéria publicada na Revista Universo Ipa Ano 1, Edição 2, Dezembro de 2006
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Que saudades daquelas correrias pra cumprir prazos! E saudades dos meus coleguinhas tb!
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