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Causos

Amor a primeira vista

Quando vi pela primeira vez Laura brincando no ‘playground’ eu deveria ter uns oito anos. Ela havia recém se mudado para o prédio e, seus olhos cor de jabuticaba me conquistaram naquele momento. Eu passava os dias e as noites falando na menina nova do prédio, meus pais achavam uma gracinha um menino daquele tamanho apaixonado. Riam e contavam para os vizinhos. Até o dia em que entrei dentro de casa, todo suado da pelada com o Dé e o Cris, e vi Laura brincando com Natália, minha irmã, na sala. Minha barriga embrulhou e passei a tarde dentro do banheiro. Minha mãe ficou preocupada e me levou ao médico, que disse que isso era normal e passava com a idade. Ele tinha razão, nunca mais me tranquei no banheiro, mas ainda sinto a mesma dor todos os dias quando a vejo acordando ao meu lado.

Dé, Cris e eu tínhamos a mesma idade. Éramos colegas de aula, vizinhos e melhores amigos. Do outro lado do nosso sexteto estavam as meninas, que povoavam nossos sonhos mais perturbadores e faziam com que nossos dias tivessem mais cor e sentindo: Natália, Laura e Giovana. Natália era minha irmã. Laura a menina nova do prédio e a Gio era irmã do Dé.

Éramos seis, seis amigos, irmãos, companheiros de aventuras infantis e descobertas juvenis. Botávamos fogo no prédio, fazíamos o sol sair nos dias de chuva e o dia amanhecer mais rápido nos finais de semana de acampamento. Assim a vida correu e a infância passou intensamente de uma forma tão saudável, que mal notamos que nossos interesses estavam mudando. As brincadeiras de pegar deram lugar as de verdade e conseqüência, as fitas vídeo game cederam espaço para os vinis e as horas jogadas passaram a ser horas dançadas. Os acampamentos permaneceram, não mais com a ingenuidade infantil e sim com a malícia juvenil, e foi neles que fizemos nossas maiores descobertas sobre a vida adulta, amor, sexo e amizade.

Os acampamentos sempre eram momentos nossos. Longe dos pais e dos olhares atentos dos seguranças e vigias, podíamos experimentar sensações e realizar descobertas que faziam a diferença na volta para casa. Foi num desses acampamentos que pedi a Laura em namoro. Os olhos dela brilhantes, seu sorriso largo de canto a canto irradiaram uma luz em seu rosto que eu nunca tinha visto.

E a resposta foi mais do que meu coração podia prever: “achei que você nunca ia pedir”. Ela encostou a boca na minha e senti pela primeira vez o gosto doce de seus lábios. Um arrepio percorrendo a espinha e minhas mãos suando frio. Só percebi o momento em que ela saiu correndo, com as bochechas coradas gritando para minha irmã e para a Gio que estávamos namorando. E as três juntas pulavam e comemoravam.

Chegando em casa Laura contou aos seus pais, que acharam uma gracinha no inicio, mas depois botaram vários obstáculos para os acampamentos seguintes. Estávamos na época de descobertas, tudo era muito saudável e permissivo enquanto éramos crianças e amigos, no momento que crescemos e passaram a nos enxergar como adolescentes, meus pais e os dela, passaram a impor limites, e maldades, nos nossos programas. Eu tinha 15 anos e Laura treze.

Foram nossos pais que despertaram nossa sexualidade e desejos. Nosso namoro, antes, não passava de andar de mãos dadas, abraços e ‘selinhos’ na porta de casa antes de ir dormir. Em minha cabeça não se passavam coisas como passar a mão nela, dar beijo de língua, transar ou dormir junto nos acampamentos. Muito pelo contrário, eu respeitava a Laura, pensava nela como algo intocável, que de tanto amor jamais poderia ser desrespeitada. E mesmo que eu tivesse quinze anos, não pensava em sexo e nem em outras meninas. No meu mundo, nos meus sonhos só existia Laura.

De tantos conselhos que meu pai e minha mãe me davam sobre como se namora e o que eu poderia fazer ou não com ela, meus desejos e anseios foram ficando cada vez mais fortes. Passei a sonhar com Laura beijando todo meu corpo, com ela se despindo para mim e pedindo que eu a possuísse. Sonhos que me davam medo e faziam eu acordar melado, como todo garoto cheio de hormônios que se preze. Se meus pais soubessem o que despertaram em mim…

Enquanto eu pedia conselhos aos meus amigos, que tinham menos experiência que eu, Laura pedia conselhos às meninas, que como meus amigos não sabiam nada da vida, pois os pais dela também falavam sobre como uma mocinha deveria se comportar, enfatizando as “coisas” que ela não devia fazer. Pois eram essas “coisas” que Laura mais queria fazer.

Assim passamos os primeiros seis meses de nossa vida juntos. Desejando o que nossos pais falavam que não podia ser feito porque ainda era muito cedo e nos comportando como deveríamos. Foi ela que deu o primeiro passo.

Estávamos acampando. Ela chegou perto de mim. Eu estava sozinho na volta da fogueira, estava frio e a lua fazia questão de iluminar pouco, apesar de estar redonda e cheia no céu. Laura me abraçou e ficou ao meu lado olhando as labaredas incandescentes do fogo, sem falar absolutamente nada. Notei que suas mãos estavam tremendo e que seu sorriso tinha algo de duvida e vergonha.

Não tive tempo nem de perguntar, quando virei o rosto ela já encostava sua boca doce na minha. Não como os ‘selinhos’ costumeiros, com paixão, força, desejo muito medo. Senti, de repente, sua língua adentrando em minha boca e pedindo que a minha percorresse a sua. Senti meu corpo vibrar, o desejo do proibido aumentar e se misturar com a vontade de conhecer cada detalhe de seu corpo. Sem perceber minha mão, tocou seu rosto e do rosto desceu para o pescoço, para os braços, para as pernas, conhecendo e sentindo cada detalhe daquela menina, daquele ser mágico que me fazia ter dor de barriga desde os oito anos.

O Cris chegou correndo e no susto paramos. Nos olhamos com aquele olhar de satisfação e culpa e ela sem graça e corada saiu correndo, sorrindo e, entrou na barraca da Gio. Naquela noite dormi sorrindo. Não poderia haver pecado num ato de amor, não podia haver nada de errado no que havíamos feito, afinal foi lindo.

Ao acordar no dia seguinte, Laura havia mudado. Continuava sendo a garotinha linda dos olhos jabuticaba, mas agora parecia uma mulher, uma mulher que eu desejava com toda a força do universo e que me olhava com outros olhos também. Eu só conseguia imaginar quando eu ia tocá-la novamente, quando a beijaria daquela forma de novo e me preocupava se ela também estava sentindo toda aquela vontade que eu.

Minhas angustias logo se desmancharam, bastou eu chegar perto dela que o beijo aconteceu naturalmente, com a mesma intensidade, mas sem detalhes, afinal todos estavam olhando. Foi assim que nosso romance começou a esquentar e os meus sonhos a ficarem mais apimentados.

Com tantas emoções foi natural começar a falar de sexo. Estávamos namorando há dois anos e Laura sentia-se preparada para aquele passo, que ela mesma dizia ser o mais importante de sua vida. Mais uma vez a iniciativa partiu dela.

Organizou tudo. O acampamento. A saída de todos pra uma trilha pra que nós dois ficássemos sozinhos. Ela me chamou pra deitar um pouquinho na barraca. Começou a me beijar com toda aquela vontade, calor e amor. Foi juntando cada vez mais seu corpo no meu., deixando suas mãos passearem pelo meu corpo e pedindo que as minhas fizessem o mesmo. Começou a tirar minha roupa e exigia que eu tirasse seu vestido.

Assim, dessa forma, me pegando de surpresa, nossos corpos se uniram e tornaram-se um só pela primeira vez. Nossos suores se misturavam enquanto fazíamos juras de amor eterno. A barraca de repente ficou com um perfume diferente e nossos corpos, ali, nus, adormeceram extasiados de paixão e ternura

O engraçado é que mesmo depois de 15 anos casado com Laura. Ainda sinto o mesmo perfume todas as vezes que nos amamos. Percebo o mesmo brilho em seus olhos e continuo venerando-a como a primeira vez. Aprendi a controlar a dor de barriga. Mas não enxergo um dia da minha vida sem ela. Sem seu amor, seu sorriso e sua companhia.

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