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Prosas

Os fins justificam os meios?

Cheio de simbolismos, interpretações e reflexões a questão emblemática “Os fins justificam os meios?” Torna-se, às vezes, clichê por ser repetida como ditado popular e sem nenhuma reflexão. Ao falarmos da ética jornalística, baseado no código profissional e no filme “A montanha dos Sete Abutres” tentamos responder se realmente os fins justificam os meios ou se é a maior das falácias da sociedade.

O filme aborda de forma quase caricaturizada as concepções jornalísticas da imprensa marrom e que, por vezes, é praticada em toda a imprensa para vender as notícias. As lições ensinadas por Tatum, personagem principal do enredo, causam vergonha o que fez com que o filme fosse um fracasso de bilheteria na década de 50 e que sirva, hoje, de ponto de partida para a discussão do fazer jornalístico nas universidades.

Entre tantos artigos do Código de Ética dos jornalistas chama a atenção no Capítulo III, art.11º, inciso II, à regra em que fala que os jornalistas não podem divulgar informações de caráter mórbido, sensacionalista ou contrário aos valores humanos, especialmente em coberturas de crimes e acidentes.

Nesse aspecto se faz o contraponto entre o filme e o código de ética. Enquanto no filme Tatum faz de tudo para sensacionalizar e manipular a informação e a situação, tornado um espetáculo, um fato que poderia ter virado apenas uma nota de jornal, o código de ética ressalta que isso não deve ser feito. Mas o filme pode ser considerado um exemplo fictício. Se analisarmos a imprensa brasileira temos alguns casos recentes da espetaculização da notícia: Isabela Nardoni, João Hélio e, mais recentemente, Eliza Samudio.

Eugênio Bacci, em seu livro Sobre Ética e Imprensa (Companhia das Letras, 2008), faz a seguinte reflexão: “A propósito: onde é mesmo que ficou a realidade? Talvez logo ali adiante, detrás da profusão das imagens, às vezes sedutoras, às vezes chocantes, produzidas pelo espetáculo.” (2008: 198). A verdade que na interpretação de Tatum não é considerada notícia. A verdade que não pauta as redações, pois não vende. A verdade que é considerada em nosso código de ética primordial para o exercício da prática profissional. Essa mesma verdade com tantas facetas diferentes que não é noticiada, que é abandonada, não só pela questão comercial, mas também pela vaidade humana.

Entramos, então aqui, num limiar muito tênue entre o certo e o errado e principalmente na questão da natureza humana. Como diz Maquiavel a nossa essência é má. Ele que usa esse argumento em seu livro “O Príncipe” para embasar sua afirmação de que os fins justificam os meios. Voltamos então ao ponto de partida de nossa reflexão sobre o fazer jornalístico, o código de ética e a caricatura da imprensa no filme “A montanha dos Sete Abutres”.

Não podemos negar que o ser humano tem sim um grande interesse pelas tragédias, principalmente as individuais. Também não podemos, infelizmente, negar que a lógica das redações é pautada em cima do sistema capitalista de vendagem. Mas não estaríamos, nós, jornalistas e aspirantes, dando continuidade numa lógica irracional e que vai contra todo o nosso código de ética e aprendizado na universidade de que devemos tratar as fontes, histórias e notícias com respeito e humanidade? Num meio onde a verdade deveria reinar, ascende-se uma fogueira de vaidades, e no fim o que realmente vale é conseguir prender a atenção do leitor/ouvinte/telespectador de qualquer forma, mesmo que para isso seja necessário transformar sofrimento em espetáculo.

O filme ainda chama a atenção de que, muitas vezes, as personagens são seduzidas pela fama, dinheiro ou outros interesses que o repórter desperta e assim passam a fazer parte de bom grado do espetáculo, se desligando do sofrimento e obtendo vantagens. Sim Maquiavel tem razão à essência humana é má.

Mas os fins não deveriam justificar os meios quando a vida de pessoas está em jogo. A inversão de valores, a passividade da sociedade e a curiosidade dos homens é que faz com que se mantenha essa lógica maquiavélica e que continue se permitindo que isso aconteça. E claro a necessidade de sobrevivência dos jornalistas. Afinal, quem é que correrá o risco de utilizar a clausula de consciência do código de ética e ficar desempregado?
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Esse texto foi produzido para responder uma questão da disciplina de Ética Jornalística da faculdade de Comunicação Social, habilitação jornalismo da Universidade Federal do Pampa. Mas achei que cabia pública-lo aqui no blog. Fica a reflexão.
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