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Prosas

A vida que nasce da superação



Tem histórias que merecem ser contadas. São histórias de superação, histórias que mexem com a nossa imaginação e sentimentos e nos fazem questionar alguns mitos e preconceitos que temos. Quando essas histórias acontecem perto de nós, parece que o cuidado ao relatar fica redobrado e a dificuldade de escrever surge com uma voracidade que parece que você nunca redigiu mais que duas linhas na sua vida.

Me considero uma aprendiz de escritora. Já contei muitas histórias reais e fictícias, já baguncei o sentimento de muita gente com textos de reflexão e desatinos insanos no Causos&Prosas mas esse foi o texto mais difícil de escrever. Procurei várias maneiras de contar, impessoal, pessoal, carregada de emoção, como reportagem e nenhuma dela me agradou. Todas faltavam alguma coisa. Então, resolvi contar, como que conta para uma amiga, uma história da minha vida.



Eu tenho uma prima que sempre foi muito especial para mim. Somos primas irmãs, ou primas gêmeas como brincávamos em criança. Eu nasci no dia 18 de agosto as 21:10 e ela nasceu no di 19 de agosto pelas 4 da tarde (não sei o horário exato, mas o que importa é que não temos nem 24 horas de diferença). Crescemos, descobrindo as coisas da vida juntas. Brincamos muito e também brigamos muito. Nosso primeiro carnaval foi juntas, o primeiro porre ( pelo menos o primeiro que me marcou ), os primeiros namoradinhos sérios e muitas primeiras vezes das nossas vidas aconteceram juntas. O nome dela é Débora Haupt, mas a gente chama ela de Debi, e ela tem 32 anos, uma marido maravilhoso chamado Jair e uma filhinha muito fofuxa chamada Manuela de 1 ano e 3 meses. Eles moram em um distrito do município de Farroupilha, no Rio Grande do Sul, ou seja, moram no interior do interior. E a vista da janela da sala deles é uma imensidão de verde, com uma represa que acalma só de pensar. Até ai não tem nada demais. Ela é uma mulher na casa dos 30, com família que mora num lugar lindo.

Mas a história, infelizmente, não é tão simples assim. Uma semana, depois de fazer 26 anos, em 2006, ela e o marido, iam de moto para Bento Gonçalves, cidade vizinha de Farroupilha, para encontrar uns amigos. Tinham planejado uma viagem, com um grupo da escola de idiomas onde a Debi lecionava espanhol. Eles iam na preferencial da estrada. Em um cruzamento, um carro ameaçou atravessar a pista, porém quando viu a moto freou. Mas o carro que estava ao lado desse seguiu e acertou a moto. Ela, que estava na garupa, voou por cima do marido e caiu de cabeça no asfalto. Quando as primeiras pessoas chegaram em torno dela, ela consciente pediu que ninguém a tocasse, pois não sentia nada do pescoço para baixo. O acidente lhe causou uma lesão medular na cervical. E como consequência Débora ficou tetraplégica. Foram duas cirurgias para estabilizar o pescoço. Muita torcida para que o movimento do diafragma voltasse a funcionar. Muitas noites rezando para que ela saísse do hospital e muitas outras chorando pela incerteza do futuro. Não é fácil de uma hora para outra pensar que todos os sonhos podem não se realizar. Se a gente sofre angustiantemente sem sofrer um acidente assim, imagina como não deve ser a dor emocional de quem, de repente, tem seu estilo de vida roubado por um babaca no trânsito.

Depois do período intenso no hospital era preciso reagir e descobrir formas de se adaptar a nova condição. Minha prima e o marido viajaram para Brasília, ela ficou internada no Hospital Sarah, onde aprendeu a fazer pequenas coisas, com adaptações, nas mãos para que ela pudesse “segurar” os objetos. Comer, escovar os dentes, o cabelo, se maquiar. Aprendeu também por lá a fazer artesanato e produziu muitas coisas lindas para toda a família. Ao todo, Débora, foi seis vezes para lá e cada vez volta com novidades e novas possibilidades para melhorar a sua qualidade de vida. Mas os sonhos de outrora permaneciam. Ser mãe era um deles. Teoricamente não havia problema algum no aparelho reprodutor. A lesão não impossibilitava ela de gerar um bebê. Mas e a pratica? 

Depois de cinco anos do acidente, Debi se sentia preparada para poder superar mais esse desafio. No próprio Sarah teve as orientações necessárias. Realizou os exames devidos e procurou em sua cidade um obstetra de alto risco. Porque apesar de o aparelho reprodutivo não ter nenhum problema, uma grávida tetraplégica tem mais propensão a trombose e infecções urinárias. Agora você imagina que, nessa situação, além de todo o cuidado foi feita uma cesariana para que a a Manu nascesse. Sim, obviamente, não é possível que alguém que não tenha movimentos das pernas e não sente dores tenha um filho de parto normal. Errado. A Manuela nasceu de parto normal.

A obstetra que a Débora procurou, fez várias pesquisas para ver as possibilidades, estudou o caso direitinho e achou uma alternativa. Era preciso um anestesista. Uma pessoa que não tem a sensibilidade da dor pode ter uma disreflexia (reflexo da dor para quem não tem sensibilidade) perigosa e descompensar. O anestesista embarcou no sonho de todos e procurou a melhor analgesia, para que ela pudesse ver sua filhinha ao nascer. O parto da Manu foi induzido. O controle de dilatação era rigoroso para que tudo corresse bem. Antes do parto foi feita a analgesia para que nada desse errado e a força necessária foi feita manualmente por fora da barriga. 

E assim a Manuela veio ao mundo, podendo ter o contato com a sua mamãe nos seus primeiros segundos de vida e minha prima pode ver seu rostinho. Claro que existem dificuldades, mas como ela mesma diz ” A maior dificuldade esta dentro da cabeça do adulto quando não pode fazer determinadas coisas que gostaria e não consegue. A gente sente falta de muita coisa, e às vezes bate uma tristeza por isso. Mas o fato de ter podido ter um filho e a preparação psicológica que e necessária faz com que eu consiga sempre buscar o lado positivo e maravilhosos de ser mãe. A Manuela me encheu de vida e isso não tem preço, preciso superar esses conceitos e curtir aquilo que posso fazer e o que tenho nas mãos”, sorri Débora.

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