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Causos

No divã

– O que eu faço, Doutor?
Minha voz ecoava pela sala enquanto eu analisava pela milésima vez as rachaduras do teto daquele consultório. A resposta vinha como eco:

– O que você quer fazer?
Respirei fundo. O que eu quero fazer? O que eu quero fazer? Eu quero dizer que meus pais não pagam 200 pila por cada consulta para eu vir aqui e você simplesmente responder minhas perguntas com outras perguntas. E eu venho aqui duas vezes por semana há quase um ano e até hoje eu nunca sai de uma consulta com alguma resposta. Eu quero dizer que com o dinheiro que eu te dou de presente todo mês você deveria, pelo menos, pintar o teto e trocar esse sofá horrível que está com as molas saltando. Se o sofá fosse mais confortável quem sabe durante esses 45 minutos eu tiraria um cochilo e pouparia nós dois dessa baboseira e cansativa farsa de que você está me ajudando e eu melhorando. Pensei tudo isso. Mas respondi apenas ” não sei”. E a resposta que eu tive foi 
– Nos vemos na quinta.
Sim. Mais uma sessão havia acabado e eu sai do mesmo jeito que entrei naquele consultório pela primeira vez a cerca de 11 meses atrás. Sem saber o que fazer. Eu não sou um menino problemático, pelo menos a maioria dos pais dariam graças a Deus por ter um filho como eu. Quieto, estudioso, sem vícios, caseiro e sem namoradas. Mas os meus pais não. Eles acham que eu tenho problemas.
Eles não poderiam ter um filho assim. Minha mãe a garota mais popular do ensino médio. Meu pai o cara mais encrenqueiro. Como? Como eles teriam um filho como eu? Não dava para aceitar. Uma vez ouvi minha mãe falando que eu só poderia ter sido trocado na maternidade. Eu sei que eles me amam, que querem p melhor pra mim, que eu tenha amigos, namoradas e histórias para contar depois aos meus filhos. Meu pai repete isso sempre ” como você vai ensinar seus filhos se não viver agora”. Mas gente, eu gosto da minha vida assim. 
Eu tenho 16 anos, estou indo para o último ano da escola e quero fazer faculdade de direito. Serei desembargador um dia. E que mal tem isso? Quando eu terminar a faculdade e começar a trabalhar, vou conhecer uma garota e me casar com ela. Mas meus pais não aceitam. Eles acham que eu já deveria ter conhecido uma garota e fazer direito? Com um pai jornalista é uma mãe publicitária? ” não é possível que esse menino não tenha nenhuma criatividade”, eles repetem. 
Então, por isso eu comecei a frequentar o consultório do Doutor Chibata. (Isso é nome de psiquiatra que se preze?). A intenção dos meus pais era que com a terapia eu passasse a ser “normal” e frequentasse festas, fizesse amigos, tivesse namoradas e largasse os livros. Eles nem se importariam se eu repetisse de ano, para fazer festas.
Eu juro que eu tentei. Juro! Mas quando os meninos começavam a ficar embriagados e as meninas a chamar a atenção desesperadamente, meu estômago embolou. Mesmo sem ter tomado nenhum copo da tal batidinha do capeta. Não era para mim. Tentei fazer amizade com os outros considerados esquisitos da escola. Mas era tão deprimente a situação deles, pois eles eram esquisitos, excluídos e não se aceitavam. Passavam o tempo todo falando dos ditos normais. Eram derrotados. Eu não sou derrotado. Eu não sou esquisito. Eu sou normal. Só tenho gostos diferentes da maioria dos jovens. Eu tenho amigos, mais velhos, que compartilham comigo conhecimentos. 
A pergunta do Doutor Chibata respondendo a minha pergunta, voltou a minha mente “O que você quer fazer?” E de repente a pergunta ficou tão clara e óbvia na minha mente. Eu quero ser eu!

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