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Prosas

Os guris da Miguel

Ontem passei caminhando por uma rua que há muito tempo eu não andava. Passei de carro algumas vezes, mas a pé talvez fizesse mais de 10 anos. Quando eu era guria, com meus 12, 13 anos muitas vezes eu ia caminhar ali. Dar uma banda, bater um papo com a gurizada que ali se amontoava. A gente chamava eles de “guris da Miguel” enquanto a gente era a “galera do CTG” ou “galera da Paulino”. 
Nossa turma tinha meninos e meninas. A deles só meninos. Acho que não moravam tantas meninas assim na rua, ou elas não se misturavam. Não me lembro de todos os guris da Miguel. Mas alguns deles eu guardo na memória, como o altão cabeludo que era DJ e fez uma festa no pátio da minha casa, com som, luz, pista de dança e a gente colocou mais de 100 pessoas no pátio. Amigos, amigos de amigos, amigos de amigos de amigos. E quando deu duas da manhã a mãe mandou baixar o som porque nossa vizinha era idosa e a gente obedeceu. Alguns trouxeram bebidas alcoólicas, outros estavam se pegando e todos se comportaram. 
Outro dos meninos da Miguel que eu lembro bem era o Lisarb. Foi a primeira vez que conheci alguém que não tinha um nome comum. Lisarb era Brasil ao contrário, o que prova que a geração dos nossos pais era muito mais doida que a nossa. 
Andar pela Paulino Teixeira com a galera ou passear com os guris da Miguel eram os nossos programas. Não os melhores, nem os piores. Eram o programa. A gente andava de dia, a noite, em bando e era tranquilo. Ninguém tinha medo. Às vezes um de nós era assaltado. Mas era raro. Ninguém nos matava por um par de tênis. A gente não tinha celular pra se comunicar. Então a gente caminhava e ia na casa dos amigos. 
Pela Paulino eu passo sempre. Não tem mais ninguém sentado no nosso muro ou reunido na rua conversando. Não existe mais uma galera, filosofando sobre a vida, contando piadas ou andando de skate. Também não existe mais o CTG. E ontem, quando passei na Miguel tive um quase djavu. No mesmo muro, encostados, conversando e rindo, uns 4 guris, enchiam a rua de vida e risos. E encheram meu coração de uma saudade gostosa. Os guris da Miguel ainda estão ali. Não são os mesmos, mas ainda se enxerga nas ruas residenciais de Porto Alegre um pouco de esperança de que a rua é nossa. 

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