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Causos

Semente da Esperança

Meu corpo inteiro doí. Não é a primeira vez, mas eu tentei que fosse a última. Agora, alem da carne que lateja a alma sente o peso da humilhação. Apanhar era uma humilhação que eu estava acostumada. Não fazia mais a alma gemer. Eu sentia na pele, cicatrizava as feridas e seguia em frente. A alma sangrando, desse jeito, depois de não ter a mão estendida… essa humilhação… não sara.

Eu acreditava que ele ia mudar. Do fundo do meu coração, as flores, os bombons e os carinhos, pareciam compensar cada mão estampada em meu rosto. Ele queria o meu bem. Cuidava de mim e se perdia a cabeça era porque eu me comportava mal. Papai e mamãe sempre disseram que eu era uma menina má. Assanhada, alegre demais, sem gostar de dar satisfação ou abaixar a cabeça para qualquer coisa.

“A vida vai lhe dar um corretivo se você seguir desse jeito, minha filha!”

Como a vida não tem mãos ela colocou em meu caminho ele para que pudesse cumprir suas promessas de me tornar uma pessoa melhor. Foram tantos mimos, elogios e carinho que eu me apaixonei. Sempre galanteador, limpo e educado ele parecia o príncipe de qualquer conto de fadas. E eu que nem acreditava nessa baboseira de final feliz, aceitei, com um sonoro “eu te amo” para sempre meu destino.

Os primeiros corretivos da vida eram verbais. Não use essa roupa. Não saia com a Fulana. Não olhe para o lado. Não converse com o entregador da padaria. Não. Não. Não. Eu até achava bonitinho, um ciúmes bobinho, inocente e que me parecia ser amor.

Minhas amigas, amigos, família, diziam que aquilo estava errado e eu jurava que todos estavam com inveja. Afinal, quem havia de ter tanta sorte como eu de conhecer um príncipe que me amava e cuidava de mim. Proteção era zelo, era amor.

No dia que a mão se estatelou em meu rosto, ela foi acompanhada de um “desculpa, perdi a cabeça” e mil carinhos. No dia que um punho fechado quebrou meu nariz, foi acompanhado de um “te amo”e a promessa de nunca mais acontecer. No dia em que eu não quis sexo e ele se enfiou em mim me rasgando inteira foi acompanhado de um “você é a melhor mulher do mundo”. Não foi estupro, ele é meu marido. Eu disse não, mas ele tem direitos sobre mim.

Perdi as contas de quantas vezes eu disse não. De quantas vezes ele forçou sua entrada entre minhas pernas. De quantas vezes eu chorei depois porque doía. De quantas vezes mãos estamparam meu rosto, punhos deixaram marcas roxas e meus braços foram sacudidos empurrando todo meu corpo contra o chão. Mas era meu corretivo. Papai havia me avisado que a vida se encarregaria. Quem mandava eu ser uma menina má?

Meu sangue não desceu e os dois tracinhos no palito comprado na farmácia e mergulhado na urina em um banheiro sujo e fétido indicavam o que eu tinha medo: Havia uma semente do meu corretivo dentro de mim. Ele não queria plantar. Eu sabia disso, havia me avisado muitas vezes, das formas mais diversas, inclusive quando me disse que puta como eu não podia por criança no mundo, não tinha como educar um filho e que se um dia isso acontecesse a vida acabaria pra mim.

Eu sempre quis ser mãe. Ele tinha me feito perder a vontade. Mas agora, agora a semente estava ali. E como eu um passe de mágica eu descobri o que era amor. Porque foi só os dois tracinhos despontarem rosados no palito mijado que um sentimento novo tomou conta de mim. Não haveria mais corretivos, mãos estampadas ou roxos pela carne. Não haveria mais violações do meu ventre e aquela sementinha seria só minha.

O que dói é que entrei na delegacia. Aquela que me disseram ser especializada para mulheres como eu. Um homem, vestido de calça jeans e camiseta, barba por fazer e sem o menor tipo de compaixão pelo ser humano, me olhou dos pés a cabeça. Perguntou o que eu queria. Expliquei. Do jeito que eu pude, do jeito que deu. Agora todos os corretivos me pareciam tão errados que meus olhos não seguravam a enxurrada que deles brotavam e minha boca não continha os inúmeros soluços e gemidos abafados ao longo de tantos anos.

– Você apanha há 5 anos e agora quer denunciar? – O homem que deveria me proteger disparou uma sonora gargalhada e me aconselhou. – Volta pra casa, faz as pazes com teu marido e respeita ele. – Virou de costas e saiu, sem me ouvir.

Eu não podia voltar pra casa. Minha sementinha não merecia crescer assim. Ou não ter chance de nascer. Eu não tinha dinheiro, não tinha onde morar, já não tinha amigos e meus pais não me aceitariam de volta. Eles acreditavam que meu marido era um homem bom, que só estava me ensinando o que eles não conseguiram. Agora eu sabia. Aquilo não era ensinamento ou corretivo. Era violência, era estupro, era abuso. E eu não merecia.

Em frente a delegacia, sem saber o que fazer, pensando em como aquele homem pode rir da minha cara e sentindo fundo na alma o desespero de não ter ajuda onde deveria haver conforto, um anjo estende a mão.

– Você precisa de alguma coisa?

Seu sorriso era materno. Suas cicatrizes indicavam que havia passado perto do inferno como eu e sua mão um papel estendido em minha direção.

“Você pode estar confusa agora, mas sim, isso é violência contra a mulher! Somos muitas e podemos nos ajudar…”

Abracei o anjo. E o sorriso preso em minhas estranhas se fez em meu rosto. E em algum lugar encontrei esperanças.

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Este conto fará parte da Antologia “Isso também é preconceito!” Organizada por mim e pela Gislaine Oliveira. Em breve tem novidades sobre esse trabalho!

————-

Gostou? Então confere meu último lançamento “Sexo Virtual, Amor Real” na nossa livraria.

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48 comments
  1. Thamires

    Amei a sua escrita! É tenebroso saber que coisas como essas acontecem um muitas casas brasileiras, e sabe o que é macabro? A história SEMPRE é a mesma, você descreveu de forma perfeita: a culpa é da pessoa que apanha, ele é carinhoso e pede desculpas e o local que deveria ser um abrigo é apenas mais um tapa na cara. Nisso tudo o pior é em pleno século XXI ter que ouvir “mas ele tem direitos sobre mim” e infelizmente as pessoas se levarem nessa mentira.
    Parabéns!

    Memórias de uma Leitora
    memoriasdeumaleitora.com.br

    1. Luísa Aranha

      Thamires,

      Obrigada pelos elogios… Infelizmente é a realidade que muitas mulheres vivem e não se dão conta. Como você falou a história sempre se repete…

      Bjos

  2. Suzane Cruz

    Caramba, que forte e profundo, esse assunto mexe muito comigo, sempre fico indignada com essa situação e como a mulher por muitas vezes se sente culpada, sente que merece! É triste e revoltante como pessoas que deveriam te defender riem de você! Humilhante tão situação e no final das contas somos nós por nós sempre!

  3. Bel

    Olá, tudo bem?

    Confesso que não li o texto. Depois do quote não consegui ler. Mesmo sendo curto, mesmo não sendo um livro inteiro e principalmente entendendo a importância do contexto dele. Tudo é questão de momento, meu momento é mais frágil do que o meu normal, então se eu continuasse a leitura acabaria o final de semana inteiro enroscada na cama, sentindo que sou o último ser humano da Terra. Afastei-me do que anda ferindo minha pele, dilacerando meu coração, porque preciso estar forte para voltar a ajudar quem precisa de mim.

    Espero que não fique chateada por minha sinceridade… Quando eu estiver mais forte, volto e leio.

    bjss

    1. Luísa Aranha

      Oi Bel,

      Claro que não fico… Mas saiba que se precisar de alguém para conversar, dividir as dores e ver outras perspectivas pode contar comigo! Fique bem, se recomponha e de a volta por cima. Leve o tempo que precisar, mas tenha a certeza que você é capaz de superar…

      Bjos

  4. Daniele Vieira

    Olá
    É uma história muito triste, mas que infelizmente acontece o tempo todo, acho que um grande problema é essa coisa de querer mudar a outra pessoa, vai aguentando tudo nesse crença até ficar presa nessa violência que só vai acabar quando ele quiser, infelizmente.

  5. Ana Paula Lima

    Olá!

    Mais uma vez, me encantei com sua escrita.
    Esse tema é forte e como já disseram choca bastante! É péssimo que ainda vivemos nessa realidade…

    Beijos

  6. Morgana Brunner

    Oiii, tudo bem?
    Ai que coisa mais linda guria, eu que sou toda sentimental não sei se seria o momento de ter lido, me via encantada e encurralada querendo mais e mais da sua escrita, você tem futuro nisso, Te desejo muito sucesso.
    Beijinhos da Morgs!

  7. Aline Belloni

    Nossa, que conto sofrido.
    Fiquei me imaginando no lugar delas e também em quantas outras mulheres devem se encontrar no mesmo estado que ela. Te dou os parabéns, porque foi tudo muito real. Um conto perfeito e que talvez, outras pessoas devessem conhecer.

  8. Kamila Villarreal

    Olá!

    Que texto cruel, porém verdadeiro. Parabéns pelas palavras escritas, são elas que podem conscientizar tantas mulheres por aí de que sofrem violência e nem sabem…

  9. Alice Martins

    Olá, tudo bem?

    Seu texto foi um belo tapa na minha cara! Sabe quando alguém lhe conquista pelas suas palavras, então, aconteceu isso comigo, você me conquistou. O tema que você tratou é tão importante, tão atual e tão dolorido, que é quase impossível não se emocionar com este conto. Eu vi de perto esses vários tipos de violência doméstica mencionados por você e sei o quanto isto dói, machuca e corrói. As mulheres realmente acham que seus parceiros irão melhorar em algum momento, que irão parar de praticar tais violências e muitas vão postergando o momento da denúncia. Infelizmente, algumas não acabam vivas para contarem suas histórias, elas são machucadas fortemente. Adorei o texto! Parabéns!

    Beijos!

    1. Luísa Aranha

      Oi Alice,

      Infelizmente essa é uma realidade que temos que tratar. Queria não precisar tocar no assunto, mas enquanto existir precisamos usar as armas que temos para conscientização. No meu caso, são as palavras!

      bjos

  10. Daniela Vaz

    Aguardando as novidades do ”Isso também é preconceito” =) Embora um pouco triste eu gostei do conto. Não é uma “ficção” e sim a realidade de muitos infelizmente. Sera que a violencia domentica algum dia vai acabar? Sera que algum dia, vão dar atenção de verdade às vitimas? Ajuda-las a afastar-se do agressor?…. Perguntas que não temos respostas.

    Beijo

    http://www.omeumundolouko.blogspot.com

    1. Luísa Aranha

      Oi Dani,

      Em breve teremos novidades sobre a Antologia. Estou montando o calendário pra mandar pro autores. Acredito que o lançamento seja em maio!

      Bjos

  11. Ana Caroline Cruz dos Santos

    Olá, tudo bem? Que ótimo conto. Vemos tantas e tantas mulheres passando por isso, que as vezes vemos a ficção se misturar com a realidade. Eu simplesmente amei e que sirva para muitas mulheres abrirem a mente. Qualquer tipo de ataque verbal, física, mental NÃO É saudável, não é normal. Obrigada por esse texto reflexivo hoje <3
    Beijos,
    diariasleituras.blogspot.com

    1. Luísa Aranha

      Oi Ana,

      Infelizmente precisamos misturar a ficção com a realidade (ainda mais essa realidade) pra que as pessoas reflitam. Queria não precisar…

      Bjos

  12. Michelle Pereira

    Oi Luísa!
    Foi incrível a leitura. Achei muito profundo e sentimental e me fez refletir muito sobre essa realidade que existe, é muito, por aí.
    Espero que a antologia faça sucesso e abra os olhos de muitas pessoas para o mundo real.
    Bj

    1. Luísa Aranha

      Oi Michele,

      Essa é a nossa ideia com a antologia. São vários autores refletindo sobre questões que nem todo mundo vê como preconceito, mas que fazem com que o mundo fique sempre um pouco mais feio!

      Bjos

  13. Carolina Trigo

    Oi Luísa!

    Gostei demais do seu texto. Infelizmente, ainda hoje, muitas mulheres passam por isso. É muito triste, pois muitas tem medo de irem na delegacia.
    Apesar de ser pesado, acredito que algumas vezes os autores tem que escrever sobre essas situações e os leitores precisam ler sobre isso – para abrirmos os nossos olhos, que muitas vezes fechamos.
    Boa sorte com a sua antologia!
    Bjss

  14. Elisabeth Lorena Alves

    Nossa, Luísa, como é triste ver essa violência descrita assim… Anos atrás, escrevi um texto como esse, “Eu não mereço este homem”. E de lá para cá tenho visto tantas pessoas viverem situações parecidas. Infelizmente as pessoas que trabalham com as vítimas, que deveriam dar uma nova chance, pensam como o funcionário do texto, se aceitou tanto tempo, pode continuar. Percebo que ao trabalhar tanto com essas cruezas, as pessoas acabam perdendo a sensibilidade e perdem a oportunidade de atender alguém que realmente encontrou um resquício de esperança para fugir da opressão mental que a faz aceitar a violência. Seu texto é claro, mesmo nas sutilezas, desenha as possibilidades e, sonceramente, apesar do título, eu esperava o pior.
    Muito bom que esse é o retrato daquelas que encontraram um anjo e que pode sair do círculo da violência. E melhor ainda, quando gera um filho. Digo isso, pois infelizmente, na maioria dos casos, o filho se torna o motivo para que essas mulheres permanescerem em cárcere silencioso…
    Parabéns pelo realismo e pela poesia que sobrevive a dor da personagem…
    Elisabeth Lorena

    1. Luísa Aranha

      Elisabeth,

      É tão doida essa realidade e, mesmo sabendo que um filho, na maioria dos casos não é o motivo dessas mulheres conseguirem sair da violência, optei por usar como uma forma de esperança, de recomeço. Afinal, sempre precisamos ter alguma!

      Bjos

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