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O início do fim – Apenas o nada…

De todas as certezas que um dia eu tive na vida essa é a mais verdadeira: tudo irá acabar no momento em que eu fechar aquela porta. Não é aquela lenda de auto ajuda que Deus fecha uma porta para abrir uma janela. Será tipo, bateu, trancou a porta, acabou. Definitivamente será o fim de tudo. Da minha vida e de todas as coisas que nela habitam. Que me encantam ou não. É o fim. E eu nunca tive tanta certeza de algo como tenho desse fim.

Faltam apenas 40 horas para esse momento e ninguém sabe da decisão que eu tomei. Nem ele. Todo mundo estará me esperando chegar para mais um dos eventos chatos e vazios que minha vida se tornou e eu não chegarei. Não chegarei porque nunca mais irei a lugar algum. Não chegarei porque cansei. De tudo, de todos e de mim mesma e se tem uma coisa que aprendi ao longo dos meus curtos anos de existência é me reinventar e saber a hora certa de sair de cena. E essa será a minha saída final e triunfal.

Se estou com medo? Claro que estou. Quem não tem medo de saber que tudo que conhece desaparecerá como pó. Quem em sã consciência decidi por um fim em tudo? E eu sei, todos vão me julgar. Afinal, o que ela quer mais da vida? De acordo com as revistas de fofoca eu tenho tudo que toda mulher sempre sonhou na vida: casa maravilhosa, carros de luxo, homens aos pés, sapatos com salto 15 mais caros que o rancho de muita família brasileira. Tenho holofotes, luzes piscando, camarins com os melhores queijos e vinhos. O homem eleito 5 anos consecutivos o mais sexy do país me pediu em casamento. As pessoas vão se perguntar o porquê. E sinceramente, seria um pouco ingrato dizer que não gosto de tudo isso e reclamar de barriga cheia de tudo que a vida me deu. Mas também tem tudo que ela me tirou e que não posso mais perder.

Então sim. Acabou e nada mais vai me fazer mudar de ideia ou voltar atrás. Tomei essa decisão no dia que descobri que perderia mais alguma coisa importante e que talvez, essa fosse a perda que eu já não poderia mais suportar. Porque tudo na vida tem um limite. Até mesmo as perdas que a gente suporta. E a minha cota se esgotou há alguns anos. Pouca gente sabe algo sobre meu passado além do que eu deixei saber. Todos conhecem o glamour da minha vida agora, a parte bonita e feliz da atriz que eles enxergam maquiada e deslumbrante nos comerciais de hidratante. O problema não é o que eles enxergam e sim o que escondo. Eu poderia ter usado meu passado para alçar voos mais longos. Quer algo que venda mais revista nesse mundo que a triste história de pobreza, sacrifícios e desgraças que a de uma pessoa que conquistou a fama? Não existe. Mas eu nunca quis ser apenas mais uma atriz de rosto bonito e passado trágico. Até porque eu não queria lembrar do passado trágico.

Por um minuto me concentro na imagem que reflete no espelho. E não me reconheço. Talvez essa seja a última vez que tenho a possibilidade de encarar essa imagem. Os longos cílios postiços, a sobrancelha perfeitamente desenhada. Os contornos do rosto traçados milimetricamente pro pinceis experientes que definem, salientam e afinam, cada parte do meus rosto que precisa ser consertado para que as luzes do teatro me deixem mais linda do que realmente sou. Os cabelos loiros, alisados, com leves ondulações nas pontas que contornam meios enormes seios nesse sutiã que aperta, empina e aumenta. A boca pintada num tom carmim, carnudas e perfeitas. Nada disso sou eu. Apenas os olhos. Os olhos verdes, carregados da melancolia e cansaço que guardo todos os dias e que ironicamente disfarço ao subir em um palco e contar piadas sobre tudo que a vida é. Piadas carregadas de verdades, mas que soam mais leves com o tom sarcástico do humor.

Essa será a última vez que me verei assim e me fazem lembrar da menina de camisola, cabelos crespos negros como a noite, corpo franzino, sem curvas, magra demais pela falta de comida que vivia, de olhos verdes apavorados, assustada entrando num bar cheio de homens sujos, bêbados e tarados quando tinha nove anos e encontrou a sua mãe caída, sem cor, sem brilho, sem vida, no chão do quarto com os olhos abertos esbugalhados e uma gosma laranja saindo ao canto de sua boca. Aqueles homens que não escutaram seu pedido de socorro e viram nela, mesmo com os ossos aparecendo um pedaço de carne suculento.

Não ouviam o que a menina falava. Não queriam saber de seu desespero pedindo socorro pela mãe, que apesar da pouca idade, ela entendia perfeitamente que havia tido uma overdose. Aqueles homens gostaram da presença da menina de olhos verdes no bar e começaram um ritual que a tocava nas partes mais sensíveis de seu corpo, onde nunca havia sido tocada, que repetiam palavras como em um culto adorando a menina. Eram palavras sujas, palavras que a menina não deveria ouvir. Palavras que ninguém deveria ouvir. Foi ali a primeira vez que ela se reinventou. E agora a menina faria seu gran finale.

Apenas os olhos verdes fazem me conectar com todas as coisas que perdi. Desde o pai, a mãe, a inocência e tantas outras. Os olhos, janelas da alma, revelam o que tanto escondo. Óculos escuros serão perfeitos para o fechar definitivo.

A segunda campainha do teatro me tira dos meus devaneios. É hora de incorporar, pela última vez, May Viçosa, a atriz e comediante mais sortuda do Universo. E se tem uma coisa que eu gosto de fazer é tudo perfeito. Sorrio para o espelho. Em 40 horas você não existirá mais. Sorrio agora com vontade e sinceridade. Parece um alivio que eu tenha tomado minha decisão. A terceira campainha toca e imediatamente me lembro de minha aboela. “São as pancadas de mulher, Maria Rita. Precisamos fazer silêncio e nos concentrar no palco’”.

As “pancadas de mulher”, depois aprendi na faculdade de artes cênicas da UFRJ, eram na verdade as “pancadas de Molière”. É a primeira versão sobre os três sinais sonoros no teatro e vem do século XVII na corte do rei Luiz XIV. Segundo historiadores, o artista Molière dava pancadas para atrair a atenção das pessoas e informá-las que o espetáculo iria começar. Essas “pancadas de Molière”, como eram conhecidas, ocorriam três vezes: a primeira para informar que a carruagem do Rei foi avistada, a segunda para informar que o rei já se encontrava dentro do teatro e, por fim, a terceira sinalizava que o rei já estava pronto e que o espetáculo iria começar. Minha aboela era espanhola. Linda, morena, com cabelos lisos negros e sempre estava vestida como uma legitima espanhola. Tinha o rosto sofrido, mas sempre com um sorriso. Era uma mulher humilde, mas incapaz de não estender a mão a quem precisava.

Sim, um dia eu tive uma aboela que me levou ao teatro e fez nascer em mim a paixão pelos palcos. Isso foi antes de meu pai ir embora, minha mãe se viciar e minha inocência ser me tirada a força. Isso foi antes… antes do início do final e da decisão mais certa que tomei em minha vida. Minha avó se orgulharia de mim.

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Esse é o primeiro capítulo do meu novo projeto “Apenas o nada…” e aí o que acharam? Conta pra mim!

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Gostou? Então confere meu último lançamento “Sexo Real, Amor sem igual” na nossa livraria.

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11 comments
  1. Jennifer Silva

    OMG, adorei Luisa! Me emocionei com a história da Maria, sua infância foi muito traumática e mesmo agora com toda a fama e glamour, ela teve que se tornar outra pessoa e parecia não ter mais paz, amor, felicidade e nem forças para continuar. Você é muito talentosa! Estou ansiosa pela continuação dessa história e para saber a decisão que ela tomou. Bjss!

  2. Paula Sesterheim

    Oii, tudo bem?
    O texto é muito legal e achei a personagem bem interessante. Tem uma infância difícil e isso deixa marcas. Gostaria muito de saber qual decisão ela tomou, imagino que tenha sido algo bem complicado levando em conta sua vida.

  3. Kamila Villarreal

    Olá!

    Podia jurar que era só um conto, agora estou muito ansiosa pelo resto da trama, é bem reflexiva e logo no primeiro capítulo, parabéns!

  4. Ana Paula Lima

    Oiii!

    Eu adorei esse seu novo projeto! A história está incrivel e eu já quero saber da continuação hahaha! desejo muito sucesso nessa nova fase?

    Beijinhos,

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