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Coluna da Rê

Das coisas que aprendi com Ziraldo                        

As minhas experiências, enquanto visitante de bienal, sempre foram muito semelhantes. Ia, comprava livros das editoras universitárias, quando a grana permitia alguns de literatura, e voltava para casa.

Essa foi a primeira feira que fui em três dias diferentes. E de todas as emoções que vive por lá,  ver o Ziraldo foi o que me causou o maior impacto. Assistir a sua palestra fez com que eu compreendesse a importância da sua obra na vida dos meninos maluquinhos e Julietas, com suas professoras maluquinhas. Resolvi, então, relembrar algumas coisas que aprendi com ele e que continuo aprendendo.

Que a cor da pessoa e essa história de preconceito é coisa de gente grande e abestada, que para as crianças todos os meninos são iguais, uns brancos, outros amarelos e alguns marrons.

Que a vovó não precisa usar um par de óculos e ficar sentada em uma cadeira de balanço fazendo crochê. Ela pode estar muito bem empoderada em cima de uma moto, levando um livro, ao seu netinho esquecido, em uma sessão de autógrafos, de autor bem conhecido. Ela é uma delícia, por que ela é bonita, feliz e dela mesma. Quebra-se assim muito cedo estereótipos e ideias pré concebidas, gente velha faz crochê e gente nova também. Os cabelos brancos podem ser descolados e não necessariamente aqueles com brilhinho azul e prata e bem arrumados como da vovó Benta do Sítio do Pica Pau Amarelo.

Existe um motivo para muitas pessoas só conseguirem trabalhar a noite, porque as pessoas que tem ódio dormem e deixam de emanar energias negativas que atrapalham e impedem a criatividade dos outros. Que trabalhar com o que se gosta não é trabalho é prazer, pois o cara vendeu 10 milhões de livros e só com os direitos autorais de um único livro ele não precisaria mais trabalhar . Ele desenha todos os dias e com a mão suave faz os movimentos no ar.

Que uma imagem não vale mais que mil palavras, pois para isso precisaríamos de palavras para escrever e que a escrita é árdua, porque ele não conseguiu se adaptar ao computador e ainda digita em sua olivetti. Está perdoadíssimo com aquela genialidade.

Que crianças são fiéis e sinceras, expressam o que sentem e dão um carinho genuíno. E este é o maior motivo para que elas sejam respeitadas e, que além disso, são o futuro do nosso país, o conteúdo deve ser pensado e elaborado  sempre imbuídos desse sentimento.

Que não ficamos velhos, nos tornamos velhos. E isso acontece de um dia para o outro. Acredito nisso, porque aos 30 anos sofri um golpe sutil, tal como uma marreta, e muitas coisas que estavam perdidas dentro da caixola entraram em suas respectivas gavetas. Ziraldo relata que certa vez, em conversa com Ferreira Gullar (seu amigo definidor de coisas), não obteve resposta sobre a velhice, logo quem sou eu para tentar definir.

São 50 anos de diferença, ele podia ser meu pai, meu avô, não foi nada disso.  Entretanto foi e continua sendo formador e professor. Por fim, uma professora de uma escola municipal pediu que ele gravasse um vídeo para seus alunos, já que ele era o tema da mostra literária deste ano em virtude dos seus 85 anos e ele informou que não ia gravar nada e sim iria pessoalmente. Chorei. Parabéns, mestre Ziraldo!

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5 comments
  1. Anastacia

    Oie, tudo bem?!?! A Bienal para mim sempre foi um evento e um momento de encontro. E Ziraldo, Maurício de Souza e Pedro Bandeira, fizeram parte da minha infância.
    Poder encontrar com essas três pessoas sempre é o ponto alto do evento, E o Ziraldo tem exatamente esse poder de encantar e reavivar qualquer um que esteja com ele.
    Fico feliz que você tenha tido momentos tão bons em companhia dele.
    Bjs

  2. Aline Cury

    Rê que texto lindo (cheio de emoções) e bem escrito. Foi muito interessante conferir seus aprendizados com os livros do Ziraldo!!! E que bom que teve o privilégio de ir a uma palestra dele, com um final tão bonito. E caramba, 85 anos de idade e em plana atividade … Orientando todos que tem acesso a seus livros e as adaptações dos mesmos. Enfim, parabéns!!!

    Leituras, vida e paixões!!!

  3. Lara

    Olá , quantas coisas boas você aprendeu eu não me recordo se eu já li menino maluquinho. Mais com certeza os ensinamentos de Zeraldo esse livro precisa ser lido

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