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Coluna da RêProsas

O dia em que eu me descobri feminista

O Aristóteles teve uma ideia infeliz de criar um grande arquivo na área de trabalho e dele fazer várias pastinhas. Para pertencer a cada pasta dessas você deveria preencher uma lista de pré requisitos. A terra é muito redonda para nos encaixarmos em uma única pasta ou respeitar denominações, até porque conceitos fechados também formam preconceitos.

Não possuir uma única denominação profissional, ou seja ser multi tarefa, faz com que você acumule horas a mais de trabalho. Isso é ruim em diversos aspectos (alerta de spoiler para uma próxima coluna), mas acordar cedo sem dúvida nenhuma é a pior delas. Deveria ser proibido o mundo funcionar antes das 9 horas da manhã, principalmente no dia em que você precisa cruzar as 20 estações de trem que separam a Zona Oeste da Central do Brasil. Pé ante pé, tomei banho ainda dormindo, me vesti cochilando, bebi café e peguei o trem despertando.

Aqui no Rio de Janeiro, você precisa de uma dose extra de coragem.  Porque a relação de pessoas e espaço é inversamente proporcional. O nível de sardinha em lata é bem alto e meu marido tentou me proteger, mas ainda sim eu precisei ficar com meu corpo inteiro encostado em um homem gigantesco que estava na porta e vi um diálogo silencioso com o único olhar compreensivo daquele que me protegia com a sua presença. Chegamos a Central do Brasil e com um aceno de cabeça, ambos se comunicaram e eu silenciei.

Andamos até o local da nossa aula, pois era mais um dia de curso em que estávamos dividindo o mesmo espaço de trabalho, e estipulamos, quando isso tudo começou, que seríamos dois indivíduos sem relação marido mulher. Outros da nossa área estavam presentes, e assim alguns colegas de universidade que se insinuavam de forma completamente desrespeitosa, ainda que eu não tivesse dado nenhuma abertura para isso.

Voltei mais cansada do que o habitual esse dia, porque eu percebi que eu precisava ser protegida e acompanhada para não sofrer abuso em um transporte público e quando uma pessoa estranha estava fazendo a proteção e se encostou inteira em mim, com boas intenções e sem pretensões pediu desculpas ao outro homem e não a mim.

Voltei estafada, porque percebi que para ser cem por cento respeitada enquanto profissional e não vista como um objeto a ser conquistado eu preciso ser sisuda e não tratar bem as pessoas.

Voltei decepcionada porque a maioria dos meus colegas doutores do curso eram homens e me recordei de quando um professor disse que eu não deveria me casar antes de terminar o doutorado, pois as atribuições femininas eram muitas. Lembrei automaticamente das minhas avós que fazem todo dia tudo sempre igual, como na música de Chico Buarque, e que servem seus maridos. Lembrei de quando não podia usar saia sem shorts por baixo, por que menina comportada não se senta assim; lembrei de ter que andar sem fazer sons, porque isso era coisa de mulher da vida e eu não entendia o que era isso se todas somos mulheres nessa vida.

Também do dia, em que, por conta própria, aos nove anos decidi que não usaria shorts e só bermudas, pois fui assediada na frente de uma oficina mecânica enquanto estava a caminho da banca de jornal para comprar almanaque de férias. Um professor disse que eu lembrava uma música “Garota Nacional” do Skank. Lembrei que já fui criticada por não fazer sobrancelhas e por amar pijamas de algodão.

Não se nasce feminista, torna-se. Ou se reconhece. No meu caso foi assim num clássico dia de fúria, com essas lembranças doídas, com cheiro e gosto, descobri que meu caminho era lutar pela igualdade, pela sororidade, pela empatia, pelo amor. Feminista, sim senhor.

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7 comments
  1. Larissa

    Olá, eu me tornei uma feminista pois ano passado, eu estava no transporte público aqui da minha cidade, estava indo para a reunião da escola do meu irmão e tinha um rapaz dentro do transporte público tentando pegar no meu seio, e eu me indiginei e ele me disse que ele era homem e eu mulher e ele não via problema em tocar no meu seio, mas depois disso eu encontrei esse mesmo rapaz, e ele sentou do meu lado e eu sai do banco e fui para outro. Não queria ter que viver a mesma situação. Hoje eu posso dizer que sou feminista pois um absurdo desse aconteceu comigo.

  2. Maria Mazza

    Que texto sensível e tão realista ao mesmo tempo. Acho que a identificação vem através das pequenas coisas e do que somos obrigadas a viver no dia dia. Ótima reflexão que você colocou… E continuamos vivendo nesse mundo e lutando para que ele possa ser um pouco melhor. Quem sabe um dia isso acontece!
    beijos

  3. Sávio França

    Oi, Rê. Adorei seu texto.
    Achei que você foi bem sincera com as palavras e escreve super bem.
    Diante dos casos que acompanhamos diariamente nos noticiários, ser feminista se torna uma arma contra a falta de respeito que as mulheres sofrem cotidianamente.
    Eu apoio essa causa.

    Abraço!

  4. Livros & Tal

    Oie!!
    Acho que esse assunto é um tanto quanto delicado para falar a verdade. Primeiro tenho que dizer que eu amei o seu texto a sua sensibilidade ao escrever e conseguir transpassar as emoções para nós leitor. Entretanto, sobre ser feminista ou machista ou qualquer outra coisa assim referente eu evito discutir ou criar caso porque é complicado demais isso e dependendo da pessoa sempre sai briga.

    Mas de qualquer modo, não me acho feminista :/

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